Poemas :  Tudo longe
O título quase me sufoca de solidão.
Entre estradas de barro,
poeira, mato e imaginação,
lá vou eu...

Como companhia,
só uns grilos cantando
ao sol do meio dia.
Alguém escuta esses grilos,
ou é o som do sol
ardendo nas plantas?

Por que interrogo,
se não há ninguém
ao meu redor?

De repente,
os grilos silenciaram,
eu fiquei surdo,
ou a realidade se fez presente...

Olho em volta,
procurando uma poesia
que me mostre
o caminho das palavras...

Um arbusto me acena e,
usando o código surdo/mudo,
me manda seguir
o cheiro da intuição.
E lá vou eu...

A.J. Cardiais
05.11.2019
Poeta

Poemas :  Fumaça
Poesia é fumaça
de incenso.
Onde ela passa
tudo fica intenso.

O poeta é uma traça,
que disfarça
o seu momento,
fazendo da poesia
seu alimento.

Poesia é sentimento
montado em palavras
que, com suas clavas,
tenta modificar
a realidade.

A.J. Cardiais
17.09.2019
Poeta

Poemas :  O equilibrador de palavras
Não sei "destrinchar" um poema
como os teóricos fazem.

Também não sei "montar"
um poema,
como eles montam.

Eu só sei equilibrar
pedras sobre palavras
e palavras sobre sentimentos,

Formando uma falsa alvenaria
que eu ouso dizer
que é poesia.

A.J. Cardiais
23.07.2011
Poeta

Poemas :  Inspiração à deriva
Este meu pobre poema
não tem nada a dizer...
Nenhuma mensagem embutida,
nenhuma câmera escondida...
Só palavras ressentidas.

Este meu pobre poema
é uma inspiração perdida
que, estando à deriva,
aportou no meu cais.

A.J. Cardiais
17.03.2010
Poeta

Poemas :  Aprisionando ideias
Aprisionando ideias
Um poema não tem tamanho.
Eu, quando me assanho,
deixo vagar palavras ao léu...
Depois, tiro o chapéu,
para quem consegue ver
o que eu não vi,
dentro do poema.

Um poema, às vezes,
só contém palavras em vão.
São palpitações malditas.
São desilusões escritas,
cuspidas pelo coração.

Não busque um sentido,
onde não há sentido...
Nem fique comovido
com minha sinceridade.

Um poema, na verdade,
só quer desconstruir os conceitos,
e deixar tudo de um jeito
que forme novas ideias.

A.J. Cardiais
11.10.2018
imagem: google
Poeta

Sonetos :  Egoísmo
O que sei sobre poesia,
me basta...
Não pertenço a uma casta
poeticamente correta.

Não meço palavras,
para exprimir sentimentos.
Nem rimo momentos
só para agradar a corte.

Minha palavra predileta é anarquia.
Liberdade acima de tudo.
Procuro exibir um estudo

completamente às avessas.
Fruto de obeservações
e conversas.

A.J. Cardiais
13.06.2018
Poeta

Poemas :  Catapultando palavras
A minha voz oculta
faz do poema catapulta
pra jogar palavras fora

A ideia que me devora,
quando encontra uma rima,
grita logo: mãos pra cima!
E toma a palavra na tora.

Ser poeta é uma tara
que não é qualquer um que encara,
por não ser um ofício.
Fazer poema é um vício.

A.J. Cardiais
25.04.2016
Poeta

Crónicas :  Exercícios & treinos
Às vezes algumas palavras ficam cutucando a minha mente...
Quando elas não se definem claramente, eu procuro esquecê-las. Já quando estou procurando “sarna”, eu me sento e tento decifrar o mistério.
Eu chamo isso de “Exercício e Treino” ou “Riscos e Rabiscos”. Fico procurando encaixar as palavras, como se estivesse montando um quebra-cabeça.
Tem coisas que eu gosto na hora. Já tem outras que eu não gosto, porém não jogo mais fora, como eu fazia antes. Aprendi a conservar tudo que escrevo. Deixo de lado para ver se aproveito mais tarde.
Afinal, estamos na era da reciclagem, não estamos?

A.J. Cardiais
22.07.2011
Poeta

Crónicas :  Palavras
Tem palavras que ficam presas no vocabulário do nosso subconsciente. Quando “inventamos” de escrever, começamos a chacoalhar a mente. Então elas se desprendem, e querem ser usadas. É aqui que começa a história: quando digito a palavra, e o dicionário do computador passa o “traço” vermelho. E agora, o que fazer? Tira letra, põe letra, tira acento, põe acento... E nada do traço apagar. Quem tem o luxo de ter um “Aurélio” em casa, se safa numa boa. Mas o meu “socorro” coitado, nessas horas pede perdão. O pior de tudo é que nessas paradinhas, um monte de inspirações invadem (e evadem também). E quando volto a caminhar, já não sigo pelo mesmo caminho. Nessas horas já estou cortando caminho, pegando atalho etc. Tudo para ver se encontro o fio da meada. Mas a questão aqui é a palavra. Tem aquela coisa do regionalismo, do bairrismo... e qualquer “ismo” que vá diminuindo o raio de ação da palavra. Eu mesmo sou “retado” (olhe aí, consulte o Nivaldo Lariú) para usar palavras da minha infância, que só entende quem foi menino (e do mesmo bairro) naquela época. Por exemplo: num poema, eu usei a expressão: “pidir pinico” (é assim mesmo). Quando meu compadre (o poeta Luiz Nazcimentto) leu, ele achou engraçado por eu ter me lembrado daquela expressão. Outra pessoa logo diria: aqui está errado!. O certo é pedir, e não “pidir” e o nome é penico, não pinico. Também esta pessoa não saberia o significado. O pior é que isso não está em nenhum dicionário, nem no de Nivaldo Lariú.

Se eu tivesse terminado o curso de Letras, teria optado pela Linguística. Eu gosto de como se fala, e não como se escreve.
Eu canto minha aldeia, tentando tornar-me universal. Que não entendam a letra, mas espero que gostem da música.

Vocabulário:
Pidir pinico - Dar-se por vencido, jogar a toalha, entregar os pontos, perder a luta.
Nivaldo Lariú – Autor do livro: “Dicionário de Baianês”
Aurélio - Aurélio Buarque de Holanda – Autor de Dicionários de Língua Portuguesa

A.J. Cardiais
16.07.2011
Poeta

Poemas :  Calos na imaginação
Vivo a poesia
catando palavras pelas ruas,
junto com meu sentimento.

Esta areia que passa,
escorraçada pelo vento
serve, junto com o cimento,
para minha construção.

Então meto a mão na obra:
meço bem as palavras
para não ficar sobra.

É uma luta,
misturar a palavra bruta
com o cimento da razão...

Faz calos na imaginação.

A.J. Cardiais
Poeta